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poemainfinito

  1. Tudo sempre acaba. Pode até durar a vida toda. Que no final acaba. E quando acaba começa tudo de novo até acabar tudo de novo no final. Fim.
  2. Essa surpresa sempre. Não saber nunca o que vai acontecer. Ter num segundo todos os medos do mundo. É inevitável. A vida passa. Senão acaba.
  3. As palavras partem e só deixam de si o sentido de sua ausência: Viver é esculpir o acaso. Em pedras ou palavras, esculpir uma vida no acaso.
  4. Em silêncio. Essa ausência plena: distância entre nada ter a dizer e ter tanto a dizer. Tanto assim que até as palavras decidem se ausentar.
  5. Dentro de si. Fala como quem cala. Desnuda-se como se a si escondesse. Vela o que revela. Conta as palavras. Não conta seus sentidos. Acaba.
  6. Nascida do acaso de um encontro nascido dos acasos de tantos outros encontros. Fruto das escolhas alheias descobre-se tentando descobrir-se.
  7. Você pensa não ter saída. Não sabe o próximo passo, o próximo verso. Compasso de espera. Música atonal. Sol inverso. Vida movida pelo acaso.
  8. Decifra-me ou devoro-te. Enigma do tempo, da poesia. De ser aquilo que é. Decifro-te e devoro-te. Dúvida. Dívida. Dádiva: O enigma de viver.
  9. A menina me diz não entender a poesia, as palavras. (É preciso tempo). Jogo dos sentidos: Poesia. (A vida). Tempo. (Nada é preciso). Enigma.
  10. Porque quero sentir, não tenho pressa. Na cidade a primavera demora a florir. Eu termino. O infinito não. Eu passo. O infinito fica. Poesio.
  11. A burocracia do recurso humano. Ser genérico abandonado de sua humanidade. Só sobreviver em outra selva. Vida real. Sem sentido. Sem sentir.
  12. Em algum lugar faz-se a primavera. Não aqui dentro de mim. A natureza não se faz de cenário, trilha sonora ou figurino. Lá fora é vida real.
  13. Presságio de uma nova estação. O sol se movimenta. Eternamente parado em seu lugar. Ilusão dos sentidos. Em um dia frio, faz-se a primavera.
  14. Desastrada entre estrelas, como se girassol fosse, encontra o sol. Ele irrompe numa sala branca. Epifania no meio dia. Mágica. Sonho. Solar.
  15. Desastradamente procurando estrelas. Distraída do sol. Contraída em si. Tropeçando em pedras. Traída pela escrita. Atraída de seus sentidos.
  16. Viver é tatear no escuro. "Ir entre o que vive". No escuro entre nós. No escuro dentro de nós. Como se entre os escuros procurasse estrelas.
  17. Velam. Revelam. Não são o que dizem. Em si mesmas são só palavras. Porém, fazem mágica. Um abracadabra de luz e sentido. Às vezes escuridão.
  18. Tudo o que querias era mudar de assunto. E enquanto pensas escrever as palavras, elas te escrevem. Estranhamente escrevem o que elas querem.
  19. Mas ele irrompe, interrompe, passa pelo fio do telefone, reverbera em ondas de satélite. Sem mais nem menos, eis aí: o passado se apresenta.
  20. É preciso tirar o passado do armário. Arrumar retratos, reciclar lembranças. Pôr a casa limpa. Abrir as janelas. Respirar o cheiro da chuva.